sábado, 19 de janeiro de 2019

PINDAÍBA À BRASILEIRA

Por contraditório que possa parecer, nós éramos muito mais felizes na ditadura. É, porque, a grosso modo, no período da ditadura militar, nós estávamos todos juntos, unidos e de bem uns com os outros, lutando pela derrubada daquele regime nefasto, que torturava, matava e dava sumiço a muita gente que ousasse se opor a ele.

Alguns de nós eram mais radicais, mais corajosos, digamos assim, e se expunham mais. Eram mais ousados. Outros nem tanto e outros, menos ainda, do tipo que olhava de longe o circo pegar fogo. Maneira de ser. Idiosincrasias diferentes. Só.

No espirito, no entanto, éramos todos unidos, queríamos a mesma coisa, uma democracia que nos desse direito ao voto e à cidadania. Afinal de contas, isso não chegava e nem chega a ser nada demais. Não estávamos pedindo muito. Tá lá na própria Carta dos Direitos do Homem.

Pois bem, a duras penas, contando muitos presos, mortos e desaparecidos, um dia comemoramos a derrocada daquela coisa verde oliva repugnante e começamos,  muitos mais unidos e felizes ainda, a contar nossos votos.

No começo, tudo caminhou bem. Aos trancos e barrancos, fomos nos ajustando e espalhando ideias. Espalhamos até demais. E foram tantos os partidos que nasceram que acabamos quebrados. Disso e também de uma roubalheira desmedida que os caciques desses partidos terminaram trazendo.

Mas o grande problema nem foi esse. É que, ao invés de sairmos pulando e procurando outros e outros caciques, nos limitamos a endeusar meia dúzia deles, meia dúzia que, mesmo errados, nos colocaram uns contra os outros em defesa cada um do seu cacique predileto.

Resultado, em defesa desses caciques que se lambuzaram em bandejas e mais bandejas de coxinhas e mortadelas, terminamos por nos desviar da luta maior que era a consolidação e a evolução da Democracia.

Divididos e cada vez mais agressivos, erramos mais: misturamos as nossas diferenças politico-partidárias com problemas pessoais, e o resultado é que hoje perdemos as contas de amigos e parentes atritados uns com os outros, numa pindaíba social que parece não ter fim.

É bem verdade que nem tudo está perdido. Não sejamos pessimistas. Mas que vai ser muito mais difícil sair disso do que de uma ditadura, isso vai...!


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