sábado, 19 de janeiro de 2019

O DIA DO QUEBRA FURO


L
Lula disputava o segundo turno presidencial com José Serra e, numa noite de dezembro de 2002, vinha à Paraíba também prestar apoio à candidatura de Roberto Paulino, que disputava  o Governo do Estado com Cássio Cunha Lima. Segundo o PT, ele vinha, mas muito rápido, precisando passar pra Natal, por isso, não teria condições para entrevistas, nem mesmo para uma coletiva com a imprensa de João Pessoa.

Era mentira. Havia uma trama envolvendo a Rede Paraíba de Televisão e o PT para que ele desse entrevista somente a Cabo Branco. Descobrimos a trama e o editor do Norte, Luiz Carlos, me dispensou de outras coisas porque eu teria de falar com Lula.

Luiz Carlos via por um lado apenas jornalístico, mas eu não. Eu queria mesmo era desmoralizar o PT e a Cabo Branco e também entrevistar Lula, nem que, pra isso, precisasse trocar tapa com a Polícia ou com a turma do PT e da TV.

Foi o dia todo de investigação, vai ali, liga pr' acolá. Uma tortura, sem almoço nem jantar. Estava indignado com a safadeza de botarem Lula só numa TV, deixando os outros veículos furados e a ver navios. Às 3 da tarde, já meio desesperado e graças a um funcionário do PT, soube que Lula acabara de chegar e que estava escondido no Hotel Litoral, na praia, reunido escondido com a cúpula local do PT. 

Fui lá e, pelos carros, vi que era verdade. Conheci o carro de Júlio Rafael. Tentei entrar, mas os seguranças do hotel fizeram barreira. E Lula lá. No começo da noite, eles arrancaram do hotel e tentei parar o carro que Lula estava para conversar. Mas mandaram o motorista acelerar. Com o fotógrafo Marcus Antonius do lado, mandei o motorista Anselmo (numa Elba do Norte) botar atrás. 

Foi um pega aqui pega acolá dos diabos. Por pouco não nos envolvemos em acidente na Beira Rio. Depois do Lyceu Paraibano, ao invés de descer pra Lagoa, os carros da turma do PT dobraram à direita e aí eu tive certeza que iam mesmo pra Cabo Branco e que o plano era aquele mesmo, falar só pra TV. Dobramos atrás, mas quando chegamos na frente da Cabo Branco, eles ja tinham entrado. De novo, no caso, era o jeito esperar.

Anoiteceu. E demoraram porque, além da entrevista exclusiva, tinha nova reunião, desta feita de Lula com figuras do PMDB. Estava diante da última chance. De lá, Lula sairia pro aeroporto porque o compromisso de Natal era um comício. Por voltas das 20hs, Lula sai na porta principal da TV e, aí, foi quando, sem medo do segurança, empurrei o portão e cometi invasão. 

Lula caminhava pro carro e eu colei na caminhada dele. E meu colega Marcus Antonius já foi disparando fotos. Como, mesmo andando, Lula começou a responder minha primeira pergunta, o segurança e os puxa saco do PT chegaram, mas pararam. Não tiveram mais como interromper.

Rapidamente, entre outras coisas, perguntei a Lula se ele já tinha ideia sobre o valor do salário mínimo que o Governo dele ia propor ao Congresso e ele respondeu e eu anotei, mas nem lembro o quê.

O que me lembro é que, no outro dia, quando o Bom Dia Paraíba da TV Cabo Branco começou, as 7hs, O Norte já estava nas bancas desde as 5 da matina com a minha curta, aventureira, mas compensadora entrevista.

Nunca gostei de sacanagem. De tipo algum. Muito menos daquela que, em conluio, PT e Cabo Branco iam fazer com o resto da imprensa. Lutei pra encontrar Lula, é verdade, mas minha luta maior mesmo nem era essa. Era mais quebrar o furo da TV.

O que eu não esperava, no entanto, é que, além das fotos de Lula sozinho, Marcus Antonius também iria fazer de nós dois (essa aí) caminhando, como se fôssemos amigos íntimos e como se fôssemos a lugar nenhum.

Ele terminou indo pra lá. E eu estou por aqui.

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